16 — O Cigarro
por Cochise CésarIa ignorar o cheiro de cigarro no banheiro, todo mundo sabe que tem gente que fuma escondida nos banheiros, estava pronta para voltar para casa, mas o all star vermelho com desenhos sob a porta era inconfundível.
— Pâmela? — perguntou como apresentação.
— Vai embora, novata. — ela ordenou como resposta.
“Novata? Quem fala assim no dia a dia?”, Roberta se perguntou, mas respondeu um “tudo bem” Pâmela conseguia se encaixar em praticamente todos os clichês de adolescente rebelde e não parecia valer à pena questionar o vocabulário de dublagem de Sessão da Tarde. Estava secando as mãos quando ela saiu do box.
— Espera aí. — o cigarro aceso ainda entre os dedos que apontavam para Roberta.
— Sim?
Ela se aproximou e passou o braço sobre o ombro de Roberta.
— Estava pensando em te mandar não mexer no que tem dona — ela dizia, rosto quase colado no de Roberta enquanto gesticulava com o cigarro — Ficar com raiva, essas coisas. Talvez te dar uns tabefes, quebrar o seu nariz… — pausa teatral — essas coisas… — Um calafrio desceu pela coluna de Roberta. Pâmela falava com tanta naturalidade que não era possível duvidar
— Mas aí percebi que estamos no mesmo barco furado, então por que não ser legal? Quer um trago? — ela concluiu colocando o cigarro na frente da boca de Roberta.
— Eu não sei do que você está falando. — Roberta respondeu tentando se desvencilhar do abraço.
— Arthur é gay. — ela respondeu soltando Roberta. — Se estivesse prestando atenção no seu primeiro dia, teria ouvido ele contar.
— Eu não… — mesmo com os anos de prática com Beatriz não era fácil entender o que Pâmela queria dizer — Você acha que eu gosto dele?
— Meu deus, elas são sempre as últimas a perceber. — Pâmela respondeu revirando os olhos. — Eu não acho, você gosta dele. Vou dar um desconto, mas só porque seu pai tá preso. Cadeia bagunça a vida da gente. — e tragou o cigarro como um ponto final.
— Isso quer dizer que você gosta dele. — Roberta concluiu ligeiramente espantada.
— É, estamos no mesmo barco furado. — e atirou a bituca no lixo. A voz desceu do habitual tom de desafio para algo mais lamentoso, quase confessional — Se quiser extravasar a tensão o irmão dele é OK pra uns amassos, mas isso é o mais perto que vai chegar.
— Quem é o irmão dele?
— Meu deus, menina, será que tenho que explicar tudo? — Pâmela falava de modo quase teatral, e o quase intrigava Roberta. A impaciência era real, mas a expressão exagerada. Uma autenticidade falsificada? Uma falsa autenticidade? — É o Marcus, não dá para ver pelo cabelo lambido?
Sim, o cabelo dos dois era igual, muito preto e muito liso, mas só. Arthur era baixo e magro, quase franzino e Marcus, grande e parrudo, rosto quadrado. Todas as coisas têm histórias, que parecem óbvias para quem as conhece, e Roberta não conhecia.
— Eles são muito diferentes. Nunca que ia adivinhar.
Em vez de responder Pâmela pegou mais um cigarro do maço e começou a bater no fundo na caixa, como se fosse um tique ou como se estivesse pensando em algo.
— Você está boiando mais que pato. — ela finalmente responde, logo após colocar o cigarro apagado na boca. — Pede uma ficha completa do pessoal pra Paula que ela adora uma fofoca. — sem esperar por resposta ela começa e caminhar para a saída, mas quase na porta dá meia volta, coloca o cigarro marcado de batom na mão de Roberta e se despede com um “Para não dizer que nunca te dei nada.”